Lacosta – Parte A

Lacosta – Parte A

4 de outubro de 2018 2 Por Caho Lopes

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Lacosta venceu os últimos degraus da torre com dificuldade. Já não estava em plena forma física. Os dias chuvosos e frios do inverno no litoral dos Estados Federativos do Sul (*) desestimulavam as corridas e exercícios que tanto prazer lhe proporcionavam. Mas em um lugar que qualquer problema de saúde poderia ser uma sentença de morte era conveniente se cuidar ao máximo. O mesmo cuidado que sempre tomava ao subir ali, enrolando panos nas mãos para vencer os degraus velhos e enferrujados, alguns quebrados pelo tempo e pela maresia, com pedaços pontiagudos aguardando os imprudentes como se fossem arautos da morte lenta e dolorosa causada pelo tétano.

Ergueu-­‐se da borda, e de pé entre os restos de antenas, pode contemplar a paisagem ao seu redor. Uma bruma fria e pesada dormia aqui e ali, escondendo algumas casas e restos de construção. A medida que ia avançando para dentro do continente, enfraquecia até se extinguir. Lacosta gostava de imaginar que ela também era priosioneira ali; não tinha forças para atravessar o Perímetro de Exclusão (**). Para ela faltava força, para ele oportunidade. Mas com o tempo, um pouco de sorte e um bom plano…

Virou-­‐se e encarou o mar. A velha vertigem bateu na porta de seus medos. Estremeceu, mas manteve o olhar. Ao longe, sabia que as corvetas furtivas da Marinha faziam o patrulhamento, mas não conseguia enxergá-­‐las. Vez que outra uma sombra, uma distorção na imagem e um bocado de imaginação construía um cenário mental. Estavam lá, a espreita de quem tentasse  escapar, povoadas por homens treinados para atirar sem aviso ou piedade.

Os prisioneiros mais antigos contam que houve um tempo em que os drones também monitoravam o mar, mas começaram a dar problemas de mau funcionamento por causa da maresia. Dizem até que um grupo de prisioneiros, ao observar o funcionamento errático dos drones, embarcam em pequenas jangadas, se lançando ao mar numa busca desesperada pela liberdade. Os que ficaram na praia viram algumas jangadas serem destruídas pelo ataque dos drones, que atiravam freneticamente em tudo que se mexia ou que emanava calor. Mas aqui e ali uma ou outra vela teimava em permacer fincada no horizonte, afastando-­‐se lentamente em direção ao mar sem fim. Todos na praia se abraçaram e comemoraram, e durante muitos dias não se falou em outra coisa que não fosse o que passaram a chamar de “A Grande Fuga”. Teorias surgiram sobre os nomes dos possíveis sobreviventes, mas a verdade que ninguém mencionava era que não se sabia ao certo que se alguém tinha sobrevivido realmente. Alguns dias depois, os drones desapareceram. Barcos começaram a se aproximar da costa, fechando o perímetro da Prisão (***). Muitos priosioneiros, curiosos, estavam na praia. Ainda tentavam entender o que tudo aquilo significava quando as corvetas começaram a disparar. Homens morreram despedaçados, muitos prédios e construções que ainda estavam em boas condições foram destruídos. Os sobreviventes corriam desesperadamente em busca de algum abrigo, pisando e tropeçando nos mortos e feridos. Foram dez minutos de intensa destruição e, de repente, os tiros cessaram. Aos poucos os barcos se afastaram da costa e navegaram até as proximidades do perímetro de exclusão. Seu recado estava dado.

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* Os Estados Federativos do Sul são formados pelos atuais estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Governado pela Aliança Militar, sua indústria bélica é muito produtiva. Concentra os principais Centros de Detenção das Américas do Sul e Central.

** O Perímetro de Exclusão é uma faixa de 2 km de largura contígua a Prisão de Segurança Máxima Joseph Goebbels, tanto em terra quanto no mar. Monitorada em terra por drones armados, equipados com sensores infravermelhos, sensores a laser, scanners e análise do solo, eliminam qualquer tentativa de fuga. No mar, o monitoramento é feito por corvetas furtivas da Marinha dos Estados Federativos do Sul, fortemente armadas e com detectores de presença altamente sofisticados, que estão prontas para disparar em qualquer um que cruze o perímetro.

*** Prisão de Segurança Máxima Joseph Goebbels. É um perímetro aberto, que compreende entre o que um dia foi Quintão até Cidreira. Delineada por um cinturão chamado Campo de Exclusão, seus prisioneiros são exclusivamente políticos. Ocupam a infraestrutura abandonada do local, e são responsáveis por sua própria alimentação e sobrevivência.