A Maior de Todas as Maravilhas

A Maior de Todas as Maravilhas

13 de outubro de 2018 1 Por Caho Lopes

Outro dia, estava com um grande amigo passeando pelas ruas do centro, olhando fascinado aquela fauna humana de todas as tribos, jeitos e humores, quando entramos em uma banca de revistas. Como era uma das maiores do centro, este meu amigo procurou informar-se com o funcionário que estava no caixa sobre determinadas revistas:

– Por favor, amigo, tens tal revista? – perguntou, educadamente. O homem do caixa olhou para ele com um brilho quase insano no olhar, e respondeu entre dentes:

– Não tem não. Se tiver, procura por aí que vais achar…

Fiquei espantado com aquela reação. Meu amigo, imperturbável, passou os olhos ao redor, procurou aqui e ali a revista que desejava e, como não a encontrasse, pediu ao neandertal do caixa:

– Acho que vou levar apenas um jornal… – disse, segurando um exemplar na mão e esticando uma nota de cinquenta reais na outra.

A reação do homem foi absurdamente desproporcional ao momento e a educação de meu amigo. Pôs-se a vociferar que não era obrigado a ter troco para uma nota daquele tamanho para vender um simples jornal; que todo mundo hoje estava tentando tirá-lo fora da paciência, e por aí afora. Entregou o troco quase salivando, ao que meu amigo educada e gentilmente agradeceu e saímos para a rua.

– Mas que brucutu! – disse eu assim que demos alguns passos, consternado que estava pela falta de reação de meu amigo com toda aquela grosseria. – Porquê não mandaste aquele cidadão à pqp? Eu, em teu lugar, teria perdido as estribeiras…

Meu amigo deu alguns passos sem dizer nada, apenas com um sorriso leve nos lábios. Finalmente, me disse:

– Hoje em dia, eu escolho o momento emocional que estou vivendo. Escolho inclusive o direito de ficar brabo ou não nas situações do dia a dia. Hoje, eu vivo em constante equilíbrio.

“A maior de todas as maravilhas
não é o conquistador do mundo,
mas o dominador de si próprio.”

Schopenhauer
Filósofo alemão

Caho Lopes
Novembro de 2003