O Ritual do Pigmeu

O Ritual do Pigmeu

24 de novembro de 2018 0 Por Caho Lopes

A mulher do Baltazar abriu a porta e deu de cara com aquele pigmeu meio sujo, com cara de espanto, segurando uma pequena caixa entre as mãos desproporcionais ao resto do corpo. Passado o instante de perplexidade, ele começou a dizer a ela que o Baltazar, em sua viagem à África, tinha encontrado sua tribo e realizado o Shi-bum-bá, que era mais ou menos um estágio de latência, onde as energias de um ser humano eram canalizadas para outro lugar (no caso do Baltazar, um ovo de crocodilo), e ali ficariam armazenadas até que fosse chegada a hora de seu retorno, chamado de Shi-bum-bum.

Perplexa, a mulher do Baltazar viu o homenzinho ir embora com a mesma sem cerimônia com que chegou, deixando a caixa com o ovo dentro entre seus pés. Tudo bem que o Baltazar andava desgostoso com a vida, principalmente no que dizia respeito ao relacionamento vazio e distante que ultimamente mantinha com a família e os amigos, mas ir para a África num safári fotográfico e voltar em forma de ovo? Isto era demais!

Cética, resolveu guardar a caixa por vias das dúvidas, e a verdade é que o Baltazar nunca mais apareceu. A agência de turismo disse que ele se perdeu do grupo enquanto observavam um casal de zebras copulando, e não fora mais visto a despeito de todas as buscas efetuadas.

Quarenta anos mais tarde, a neta do Baltazar notou que aquele ovo que herdara da vovó junto com a casa e todo o resto começou a crescer e a latejar. A princípio, achou que fosse  apenas o calor do fogo, já que a lareira não era acesa há muitos anos e o dito cujo estava na prateleira que absorvia mais calor.

Mas aquilo começou a crescer, crescer e latejar tão rapidamente que ela correu ao quarto para pegar o celular e ligar para alguém

pedindo ajuda. Foi quando ouviu o barulho da explosão. Ao chegar na sala, encontrou o Baltazar, com o corpo nú lambuzado de uma substância gosmenta que cheirava a sapato novo. De couro. De crocodilo.

Ajuda, geme, limpa, veste. Quando finalmente começam a conversar, compreendem quem são, e abraçam-se emocionados. Baltazar então pergunta da esposa, filhos, filha e amigos. Descobre que quase todos morreram, e, quando chega o pai da sua neta reconhece nele o filho mais moço, com quase setenta anos e milhares de perguntas. Baltazar então se desespera e chora. Sua vida jamais teria conclusão, pois ela havia ficado perdida em algum lugar de seu passado…

Moral da história: este é o único momento que tens para viver e te relacionar com aqueles que te cercam. Aproveita-o, pois amanhã todos temos um encontro marcado com o destino.

Seja ele qual Shi-bum-bá ou Shi-bum-bum.

Caho Lopes
Agosto de 2004