Basta Ser Único

Basta Ser Único

2 de novembro de 2018 0 Por Caho Lopes

Lendo uma revista de circulação nacional, deparei-me com a entrevista da tenista Martina Navratilova, onde ela declarava que o segredo do seu sucesso é não desistir nunca dos seus objetivos. Ela vai em frente custe o que custar, buscando sempre alcançar a perfeição em tudo que faz. Coloquei a revista de lado, peguei o jornal e eis que me deparo com a crônica de uma conhecida colunista onde ela conecta o nosso “orgulho de ser gaúcho” com a detestável soberba. Alguns meses atrás, a mesma cronista causou polêmica ao expressar sua vontade de ver “glamourizadas” as nossas praias gaúchas. Fechei o jornal e fui para a rua, passear um pouco e pensar bastante sobre as verdades da minha vida.

Todas as opiniões devem ser respeitadas. A tenista e a cronista estavam apenas emitindo as suas, com todo o direito e respeito que qualquer pessoa merece, talvez acrescidos do destaque que suas posições relevantes na sociedade têm direito.

Mas e se não estiverem certas? No meu entender, desistir nem sempre é sinal de derrota ou fraqueza, em muitos casos é sinal de inteligência. Desistir de conviver com um parente que te faz mal, dimensionando os encontros e as conversas a limites que não firam teus sentimentos ou os de teu parente é um sinal de sabedoria. Desistir de um emprego que paga bem, mas onde não somos valorizados profissionalmente ou onde não somos respeitados é outro exemplo.

A perfeição, este Santo Graal dos dias atuais, também deve ser questionada e vista com as sobrancelhas arqueadas.

Pegue o exemplo de um jardim: para a maioria dos paisagistas, jardim bonito é jardim simétrico, onde tudo está perfeitamente alinhado, limpo, aparado, as cores em harmonia… Imagine uma floresta deste jeito, as árvores todas alinhadas, as copas de uma sem invadir o espaço da outra, as cores de frutos, folhas e flores demarcadas por zonas… A beleza da floresta está no caos que a natureza proporciona, onde a biodiversidade pulula na sabedoria do que é simples e imperfeito.

Também não creio que a soberba seja uma das características de nosso povo. Soberba é uma ilusão que alguém cria quando existe um abismo entre quem ela é e quem ela pensa que é. Conheço algumas pessoas assoberbadas e, ao menos no meu círculo de relacionamentos, são minoria quase inexpressiva.

Quanto às praias, prefiro Pinhal a Canasvieiras, e isto é uma questão de gosto, não de possibilidades financeiras.

Por isto comecei a pensar nas verdades da minha vida. Porque são minhas, e não emprestadas. Por mais abalizada que seja a opinião de outrem, talvez não me sirva. Uma pessoa normal, por volta do ano 1300, adquiria durante toda a sua vida o volume de informações que hoje circula em uma única edição do New York Times. Existe hoje informação demais, opções demais, e discernimento de menos.

Portanto cuidado ao eleger as verdades de outros como as tuas. Principalmente, cuidado com pessoas que não respeitem teus sentimentos, tuas particularidades, tuas diferenças.

Seja a única pessoa que ninguém mais pode ser.

Caho Lopes
Abril de 2006