Agenda

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25 de outubro de 2018 0 Por Caho Lopes

Mais um Natal se aproxima, e com ele uma enxurrada de sentimentos e atitudes que somente nesta época do ano afloram na maioria das pessoas. Alguns são bem conhecidos: a fraternidade se expande no coração de todos, a solidariedade também é maximizada neste período, e até mesmo a depressão e a tristeza têm seu espaço. Porém, existem situações que passam desapercebidas (ou são facilmente resolvidas) para a maior parte da humanidade, mas levam outros a gestos de sandice e insensatez. Arrumar sua agenda de telefones em um celular novo, recém ganho de presente, é uma delas.

Antigamente, os celulares tinham apenas espaço para colocar nome e número. Quando queríamos armazenar mais de um telefone de uma mesma pessoa, éramos obrigados a colocar sob um “Clotilde 2” ou ainda “Flodoaldo casa”. Depois, os celulares foram se sofisticando, foi surgindo espaço para endereço e até e-mail. Mas a tragédia se abateu sobre um número expressivo de indivíduos quando surgiram os tais dos grupos. Nos primeiros celulares que traziam esta inovação, os grupos eram pré-definidos. Tinha “Amigos”, “Trabalho”, “Família”, “VIP” e “Diversos”. Telefone celular velho em punho, lá ia o cidadão “passar” sua agenda para o celular novo.

Adamastor era amigo ou diversos? Amigo, com certeza. Mas e aquela vez que ele marcou com o pessoal de levar umas meninas quentes na festa de solteiro do Luizão e nem sequer apareceu? E aquele dinheiro que ele pediu emprestado há mais de ano e até hoje só pagou uma parte, e ainda assim em canetas de brinde que ele recebe das empresas que atende? É, definitivamente o Adamastor é diversos… E VIP? Quem colocar em VIP? A loirinha secretária do chefe que me espicha uns olhares de vez em quando? Ou o irmão do cunhado daquele jogador de futebol que vai ser a revelação do campeonato no ano que vem, se deixarem o cara jogar e ele sair do banco de reservas?

Nos celulares atuais, a coisa degringolou de vez. Os perversos fabricantes deixaram para o usuário do telefone a criação dos grupos. Tenho um amigo que ficou tão abatido quando ganhou um de presente da namorada que ficou deprimido o verão inteiro. Só melhorou quando, depois de várias tentativas de armazenar sua agenda, afogou o celular na própria urina. Outro resolveu criar um grupo chamado “Argentinos”, onde pretendia colocar pessoas que, se compradas pelo que valiam e vendidas pelo que achavam que valiam, renderiam muito dinheiro. Internou-se numa clínica psiquiátrica para tratamento de um surto maníaco.

Portanto, cuidado com os presentes que dá ou ganha neste Natal. De qualquer forma, um sorriso aberto e franco aquece o coração de todo mundo, e não há época melhor para repartir as coisas boas que levamos dentro do peito.

Feliz Natal!

Caho Lopes
Dezembro de 2004